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Por Daniel - 22 de maio de 2010.
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Capítulo 1 – Sempre fui bom com números Leléco. Era assim que me chamavam na infância e na adolescência. Naquela época, confesso que não gostava do apelido, mas agora essa palavra me soa tão familiar. Pudera, com tantos amigos que eu não via há décadas, aqui reunidos. Me lembro dos cabelos compridos e da barba mal feita que eu exibia com orgulho como sinal de rebeldia. Meu pai, um homem truculento, capitão da reserva, não tolerava meus hábitos pouco higiênicos, as roupas que costumava vestir, tampouco as músicas que me inspiravam. O “General”, como meu irmão e eu o batizamos carinhosamente, avançava firmemente do seu quarto até o nosso, fazendo ranger o assoalho de madeira rústica da velha casa no Petrópolis com sua marcha ritmada, e proferia com voz gutural: - Abaixem o volume desta música de doidos! Ficava lá, parado sob o umbral, exibindo suas feições rudes, marcadas pelo tempo de caserna, a mandíbula larga tremendo de raiva, os ralos cabelos cuidadosamente ajeitados com vaselina, e o volume da barriga coberto pelo roupão grená, até que abaixássemos o volume do hi-fi recém comprado com a venda de nossa coleção de gibis. Nossa mãe, resignada, tratava de amansar a fera como podia. “Não seja tão duro com os meninos”, repetia com freqüência, sem muito sucesso. Era uma mulher forte, gringa de Antônio Prado, que todos os domingos cortava manualmente o macarrão que servia à família. Tinha uma sabedoria pragmática, minha mãe. Recomendava que estudássemos para ser alguém na vida, e usava os poucos tostões que ganhava com a venda de cucas à vizinhança para nos comprar livros, que devíamos ler e contar pra ela, depois, com a maior riqueza de detalhes possível. O pai recebeu com euforia a notícia da “revolução” em 64. Estava certo de que o país, finalmente, seria salvo pelas mãos firmes do regime. Eu não me importei muito com aquilo tudo, meus interesses aos quinze anos eram outros, e só fui entender o que estava acontecendo, dois anos mais tarde, quando levei alguns sopapos de policiais que invadiram o grêmio da escola em busca de ativistas subversivos. Desde então minha vida mudou bastante. Ao contrário do que o General queria, uma inscrição na escola de engenharia do exército, fiz e passei no vestibular de economia da federal, e já no primeiro mês fazia parte do diretório acadêmico. Fui galgando posições na hierarquia estudantil após ser preso duas vezes (prisão dava status naquele tempo) por discursar no pátio da faculdade. Já na primeira, cortaram minhas longas melenas. Ainda lembro com saudades dessa época. Agora, eis me aqui, contemplando essa gente toda que veio me ver. As expressões tristes dos meus amigos e familiares quase passaram despercebidas. Não fosse o choro desmedido de Eliane, – sob os olhares de reprovação de uma platéia pouco amistosa, – ex-namorada dos tempos da FCE, e ainda com as vestes ripongas que usava no passado, não teria notado o clima pesado daquele encontro. Lembro que ela chorou do mesmo jeito no dia em que contei ter conseguido meu primeiro emprego de verdade, um ano antes de colar grau, e que, portanto, deveria partir. Fui selecionado para trabalhar em um grande banco, cuja matriz em São Paulo obrigava que por lá fizesse três meses de treinamento antes de ser alocado a uma agência. Na verdade, eu também não queria aquele emprego, mas estava cansado de dormir em um catre na casa do estudante e comer no RU todos os dias. Tudo aquilo havia perdido o romantismo desde que meu pai falecera algum tempo antes. Já não via sentido na vida quixotesca que levava, em plena época do “Milagre”. Disse à Eliane que voltaria, que aquilo seria passageiro, eu trabalharia para melhorar nossa vida, mas nossos sonhos continuariam os mesmos. Ela deu-me um beijo sôfrego, carinhoso, enquanto afirmava que me esperaria. Porém ambos sabíamos que estávamos mentindo. Sempre fui muito bom com números. Podia analisar simultaneamente diversas séries temporais estatísticas e avaliar com precisão a rentabilidade futura de qualquer fundo de investimento. Com a mesma destreza extraía índices de balanços, e era categórico em afirmar se deveríamos ou não conceder empréstimos àqueles que mendigavam crédito. Minha objetividade assegurou uma carreira meteoricamente rápida na empresa e, mesmo que vez ou outra eu não reconhecesse mais o altruísta de outrora, em cinco anos já chefiava o bureau de análise de risco, cargo assumido logo após ter retornado dos states, onde cursei pós-graduação paga pelo banco. Meu fardo a carregar, além dos muitos quilos adquiridos com fast food e pizza, era o fato de nunca ter sido muito bom com pessoas. Jamais pretendi compreender as preocupações de meus colegas e subordinados com a quantidade de empregos que gerávamos, ou com os resultados sociais e subjacentes dos investimentos apoiados, e muito menos com as intenções autênticas dos empresários. Critério para tomar decisão é fato, fato é número, número é dinheiro, logo é mensurável, portanto se gerencia. Isso me custou algumas inimizades, e ampla “carteira de passivos”, maneira como costumava chamar os demitidos que o RH se encarregava de contabilizar a meu favor. Naquele tempo, casei com Rute, uma mulher esquálida, de poucas e severas palavras, pele pálida, olhos claros, com cabelos lisos e longos cor de cedro que pousavam com leveza sobre os ombros angulosos. Era uma rocha, sempre a me apoiar. Havia algo nela que sempre me impressionou, sua capacidade de percorrer a casa inteira sem fazer nenhum ruído. Tinha um passo leve, sorrateiro, felino, como se estivesse sempre procurando alguma coisa, talvez algum vestígio da dignidade que lhe fora roubada quando seu antigo noivo a deixou esperando no altar para fugir com a prima mais jovem. Sei que por alguns momentos cheguei a amá-la com carinho, mas os dois sabiam que aquilo que nos unia não era subjetivo, intangível, motivo pelo qual, diferente de outros casais, toda vez que percebíamos alguém fraquejar ao sentir fagulhas de amor, um de nós, inconscientemente, arrumava as malas e fazia uma longa viagem. Nossa relação morna gerou dois frutos, Leonardo, que me odiava, e Luiza, a quem eu mal conhecia. Filha única de um velho aristocrata do café, quando o pai morreu decidimos juntos investir o dinheiro em um negócio de futuro. Com isso, procurei um ex-cliente do banco, dono de uma pequena indústria de massas (qualquer saudosismo por minha mãe é mera coincidência), e juntos criamos uma nova empresa, hoje atual líder de mercado do setor. Rute, como era de se esperar, também constava ali naquela sala ampla, repleta de gente conhecida, porém mantinha a mesma expressão fria de quando a conheci, e dela não vertia nenhuma lágrima. Cheguei a pensar que o fenômeno se devia às inúmeras plásticas para manter o rosto jovem, mas logo lembrei que pedras não vertem água. Além disso, naquele momento a raiva que me acometia era muito grande para me dedicar a tais elucubrações. Estava possesso com meu sócio. Amadeu era um grande marketeiro, vendedor nato. Jamais perdia uma oportunidade de fomentar os negócios. Por isso, hoje, apesar de algumas semanas antes eu ter manifestado que minha despedida deveria ter a maior discrição possível, armou o velório do século, e agora fazia contatos de negócios sobre meu caixão. É, eu estou morto! (continua) Nota: O título “Disfunções do Executivo” pretende fazer uma alusão irônica ao livro de Herbert Simon (1925), precursor da gestão moderna, que em “As funções do executivo” popularizou a metodologia racional de tomada de decisão baseada em critérios mensuráveis. | |


























