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Por Camila - 16 de maio de 2010.

O que um dramaturgo tem a dizer sobre o dia a dia nas organizações? Pois o premiado ator e diretor de teatro Ricardo Blat mostra que a vivência no meio artístico proporciona lições úteis aos colaboradores de uma empresa. Aos 59 anos, segundo grau completo e uma trajetória de sucesso, ele também ministra palestras pelo Brasil falando sobre o papel do líder na condução dos trabalhos, a importância da comunicação e da colaboração entre as pessoas, o desafio de lidar com as críticas, os elogios, os egos e a pressão no ambiente de trabalho. Vale a pena conferir.


Camila LustosaAo longo da sua carreira, você teve contato com críticas e elogios. Que cuidados são necessários para lidar com esses dois extremos: o elogio e a crítica?

Ricardo Blat – É preciso lidar com cautela. Procurar reconhecer o verdadeiro valor do elogio, transformando-o num estímulo para melhorar, cada vez mais, seu desempenho. Exercitar um olhar em que prevalece a humildade (sinônimo de inteligência) é fundamental nessas horas. Até porque, muitas vezes, o resultado de um trabalho ou projeto é fruto da colaboração de um grupo maior. Assim, é possível aproveitar críticas e elogios de forma impessoal, analisando as opiniões sobre o trabalho com eficiência, de forma clara, objetiva, não deixando que o emocional turve a compreensão. O importante é que o espetáculo da vida continue, marcando as pessoas a nossa volta de forma positiva.


CL - Para quem tem equipe, que cuidados são necessários ao lançar críticas e elogios?

RB - Recomendo um comportamento respeitoso, que ajude a equipe ampliar suas potencialidades, estimulando descobertas, eliminando tensões desnecessárias e cultivando um ambiente onde a equipe sinta-se segura para trabalhar com verdadeira disponibilidade. Um cuidado que tenho é jamais lançar críticas a alguém em frente ao grupo todo. Ninguém gosta de ter seus erros apontados em público. Quanto ao elogio, busco praticá-los referenciando o grupo, sem privilégios.


CL - Em suas palestras, você menciona a importância de trabalho em equipe. Que erros as pessoas costumam incorrer quando precisam trabalhar em equipe?

RB - As atitudes individualistas minam qualquer trabalho em equipe. É impossível ser feliz sozinho, já dizia o poeta. Quando cada integrante de uma equipe sente-se seguro de sua capacidade, compreende suas limitações e recebe bem a contribuição do colega, há aumento significativo da qualidade do trabalho. A centralização por parte do líder também é algo recorrente. Pergunto-me de tempos em tempos se estou dando autonomia suficiente para o grupo fazer o que propus, errar e dar o melhor de si.


CL - Que perfis devem ser combatidos em uma equipe?

RB - As pessoas com perfis extremamente autoritários, individualistas, com um comportamento agressivo pela competitividade e que não dividem seus conhecimentos e opiniões com a equipe devem ser sempre alertadas pelo gestor para que tenham oportunidade de recomeçar e tentar diferente.


CLPor que é tão importante deixar claro às pessoas a relação entre produtividade e recompensa?

RB - Porque aprendemos a dar valor às recompensas desde cedo. Se não temos clara essa definição, pode faltar motivação. E as recompensas podem vir de várias maneiras e não somente como o pagamento de um cachê por um serviço prestado. Temos que entender recompensa como algo que nos alce a voos mais altos.


CL - Como diretor de teatro, como percebe a importância da comunicação na execução e condução de um trabalho?

RB – A comunicação transparente e a verdade são saudáveis em todos os aspectos de um trabalho em equipe. Por melhor ator que alguém seja, não consegue manter uma mentira eternamente. Ser honesto consigo mesmo e com a equipe evita equívocos às vezes irremediáveis. Evitar que circulem informações distorcidas, egocêntricas e ansiosas é tudo o que deve ser combatido numa área ou organização, seja ela de que natureza for. Se as relações forem marcadas pela ambigüidade, falta sinergia para desenvolver qualquer projeto.

 

CL - Antes de qualquer trabalho, os atores costumam preparar-se para os momentos de estreia. De que forma essa preparação afeta o legado de um profissional?

RB - Quando ficamos frente a frente com os desafios, entendemos a importância da preparação para aquele momento, do trabalho extra em casa, da leitura. Porque me sinto preparado, criei musculatura física e emocional para encarar o desafio. Estamos nesta vida para semear algo que frutifique. No meu caso, me refiro a frutos que tragam felicidade às pessoas. Este será o meu legado. Precisamos estar atentos às nossas atitudes se quisermos deixar algo de bom para as gerações vindouras. Esse é o verdadeiro desafio: escrever sua existência com qualidade, respeito e amor pelo próximo. Ser um ótimo ser humano precede o ser um ótimo profissional.

 

CLTodos temos um ego e precisamos, ao longo da vida, satisfazê-lo. Qual o maior perigo?

RB – O de viver uma ilusão constante, satisfazendo expectativas dos outros, se distanciando de nós mesmos.


CLTrabalhamos hoje com pressão por resultados, alta performance, concorrência, contenção de custos. Qual a melhor forma de lidar com essa pressão?

RB - Tendo consciência de que o ser humano não é onipotente. Relaxando. Confiando na sua própria energia e respeitando os limites do corpo.


CL - Ao participar da novela Amazônia e Carandiru, houve um despertar ou aprendizado maior com relação ao tema sustentabilidade?

RB - Sempre estive atento aos valores que devem ser respeitados e sustentados neste Planeta. Durante as gravações da novela Amazônia pude ver, por estar naquela região, o quanto temos que reverenciar a generosidade desta terra.


CL - Como você usou as premiações recebidas ao longo da carreira a seu favor?

RB - Devemos usar essas conquistas como combustível para nosso crescimento, para rompermos limites e obstáculos e nos dedicarmos ao que fazemos. A oportunidade de sermos reconhecidos por um trabalho estimula a fé, a coragem e a criatividade que existe em nós.



Publicado em: Coluna dos Diretores

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