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Por Daniel - 02 de junho de 2010.

        Com uma precisão autônoma de quem repetira os mesmos movimentos, incansavelmente, por anos de reclusão, Flannery cumpriu seu ritual ao despertar. Ajeitou o cabelo com as mãos, vestiu um par de meias de lã (de cores diferentes, cada), caminhou sofregamente à cozinha onde bebericou, direto da jarra, alguns goles de suco de papaya, e como um réptil deglutiu as vieiras que sobraram do jantar. A seqüência só teve fim quando se postou à luneta, e lá ficou por infindáveis minutos.

       A mulher na espreguiçadeira parecia diferente hoje. Enquanto lia, balançava compulsivamente a perna e o pé direitos, como se brincasse com a sandália, ao mesmo tempo em que batucava os dedos na mesa auxiliar, aparentando uma ansiedade sem precedentes. Mr.Flannery sentiu-se culpado. Não era este tipo de livro que gostaria de ter escrito, mesmo que não fosse ele o autor. “Por que tanta angústia?” – pensou. Se ele não fosse matéria, nada disso estaria acontecendo, e mesmo que fosse o autor daquelas perturbadoras páginas, a ele elas não pertenceriam.

       Absorto, só deu-se conta de si quando o objeto de seu fetiche, de súbito, acendeu um cigarro e lançou o livro metros de distância. Levantou-se instintivamente, estava tonto, suava frio, correu para o lavabo em busca de alguma dignidade, e olhou fixamente o próprio rosto no espelho, cobrando uma resposta que o isentasse da responsabilidade. Lembrou de sua preocupação inócua em desmascarar os plagiadores japoneses por terem se apropriado de obras que, na verdade, ele mesmo poderia (ou deveria) ter escrito, só então percebendo como sua inquietude e voracidade filosófica escondiam, de fato, uma vaidade irritante. “A quem pertence um romance? Como posso cobrar um livro sem que seu preço seja vil ou obsceno?!” – naquele momento teve certeza, que escrever e ler eram a mesma coisa, misto de direito e dever. Não poderia se apropriar das próprias estórias, sendo elas originadas nele, ou apenas dele usuárias. A quem pertence uma fonte d’água em uma comunidade, senão a todos – lembrou de seu marxismo juvenil. Como a água, as palavras emanam da natureza, por outras vias, é claro, mas não é legítimo cercá-las com papel e, pretensiosamente, gravar um nome para garantir-lhe mérito.

       O espelho ao qual sua vida tinha se resumido agora estava translúcido, não sentia seus pés nem mãos, mas de uma maneira estranha sabia que estava se movimentando, rápida e vigorosamente. Tudo a seu redor passou a girar em sentido oposto àquele que o próprio Flannery girava, tendo o espelho como epicentro; sentiu náuseas. Sua sensação inusitada apenas foi interrompida por sua própria voz: “Bem vindo a Tlön, Silas!”.

       Com ceticismo olhou ao redor, esfregou os olhos e mirou o espelho novamente, sua imagem lá persistia, porém estava sem óculos, e mais uma vez a imagem tomou a iniciativa, repetindo: “Bem vindo a Tlön, Silas!”.

       - Quem é você? Onde estou? – reproduziu todos os clichês que tanto refutara em seus livros, estava totalmente indefeso. – Mas, mas, você é um espelho?!

       - Lamento Silas, não sou um espelho. Aqui nós abominamos os espelhos, eles multiplicam os homens, fato que dificulta o equilíbrio do conceito de universo. Eu vim recebê-lo, e tentar ajudar em tua busca.

       - Eu não compreendo – foi interrompido por um grande pássaro de aparência inconcebível, que cortou ar pousando em uma árvore azul onde, antigamente, costumava ser sua varanda. – Você é igual a mim… eu estava em casa. Onde está minha luneta?

       - Não sou igual a você – declarou o clone. – é você que me enxerga à sua imagem porque quando vieste para cá, procuravas a si mesmo. Meu nome não é importante. Agora, siga-me!

       Como se não houvesse melhor opção, cedeu ao convite e, com passos hipnóticos, iniciou uma caminhada atrás daquele ser elemental que pretendia ser ele mesmo. Pelo caminho distribuíam-se plantas disformes, construções de forma espiral, animais exóticos, enfim, um cenário pictórico. Ao mesmo tempo em que caminhavam, seu guia falava-lhe a respeito do lugar e, apesar de algumas palavras incompreensíveis, Flannery, compreendeu que, na verdade não saíra do vale. Tlön coexiste a seu próprio mundo, porém sua lógica absurda permite ser atemporal, perene e, misteriosamente, pertence a uma dimensão de características sutis. Dessa forma, Tlön sempre esteve ali, alimentando-se da dispersão organizada e cartesiana do pensamento humano.

Seu cicerone contou-lhe que naquele país de proporções intercontinentais, havia livros (não assinados), mas não havia editoras, aliás, nada que fluísse da natureza ou das pessoas poderia pertencer a ninguém. Assim sendo, as organizações eram naturalmente constituídas sob uma regra fundamental: deveriam extinguir-se tão logo cumprissem seu propósito.

       O escritor atormentado aprendeu que no rico vocabulário de Tlön não existia signo equivalente à palavra igual. Nenhuma flexão lingüística, por mais elaborada que fosse, poderia transpor o limite de compreensão dos habitantes locais que não concebiam a possibilidade de que alguma coisa pudesse ser idêntica à outra. A palavra similar a diferente era amplamente utilizada, precedendo inúmeros substantivos. Há também outro conceito um pouco confuso, o de antagonismo. Em Tlön não faz muito sentido apropriar um significado oposto a tudo. Aquilo que é, simplesmente é, e torna seu entendimento auto-suficiente, não sendo necessárias exceções para confirmar regras, até porque não há regras, tampouco certezas. A propósito, a maior angústia dos autores é contestar suas próprias conclusões, apenas negam o método simplista de subverter a realidade para chegar à antítese.

Repentinamente o “outro-eu” de Flannery parou, voltou-se para o original atônito e disse:

       - Aqui termina sua viagem neste lugar. Você poderá continuá-la se quiser, mas não mais em minha companhia, e deve voltar para o lugar onde remanescem suas raízes.

       - Não entendo. Há tanto a descobrir, e você me mostrou tão pouco. Não quero partir ainda, como poderei conviver com a curiosidade – indagou Silas muito mais seguro do que no início da jornada.

       - Tolo, se não queres voltar é porque não aprendeu nada. Foi tua angústia e tua sede que te trouxeram aqui. Cumpriste tua busca, agora vai, cumpre teu destino porque tua viagem não acaba aqui.

       “Isso não faz sentido” – eram as últimas palavras que lembrava. Não tinha certeza se haviam sido ditas por ele ou não, mas depois de algum tempo compreendeu que elas foram sua passagem de volta. Sentido era algo que só tinha razão de ser no mundo de onde viera, portanto questioná-lo foi seu atestado de que a ele pertencia. Definitivamente estava preso a uma ordenada, e percebeu que não passava de uma função de x. Seu retorno foi rápido e aterrador, perdeu a sensibilidade nas extremidades, e de repente, após uma forte flexão muscular, reconheceu seu banheiro. No momento da chegada uma batida forte na porta rompeu o silêncio. Era seu editor, preocupado com o fato dele ter sumido por cerca de dois meses.

       Apenas alguns dias, e muitas explicações depois, ele pode reunir coragem para voltar a escrever. Sentou-se à escrivaninha, pensou, mas por mais de três horas não conseguiu compartilhar nada com o papel. Inesperadamente foi tomado de ímpeto e começou a agredir as teclas, até que o sono o venceu. Na folha solitária lia-se:

       “Aqui jaz parte de mim, abatida pela incapacidade de ser igual. Tlön está em mim, por isso a culpa que sinto agora é diferente. Antes perseguia a perfeição, mas descobri que ela não pode ser alcançada. A perfeição é um conceito originado a partir de minha realidade grotesca que estabelece fronteiras à criatividade, transformando meus leitores em réplicas sofisticadas de meus pensamentos.

       Quando escrevo, lido com variáveis, estudo as variáveis, capitalizo signos ao manipular meus personagens e suas emoções, especulo, faço inferências, no entanto, pasmo, a maior variável sou eu mesmo.

       Sabendo disso, será que consigo, pelo menos, variar de forma caótica?”


Notal ao leitor: Silas Flnnery existe. Quer saber quem é? Google it!

Publicado em: Coluna dos Diretores

  1. silvana goulart
    02/06/2010

    Querido Daniel,

    Que grata surpresa! Que universo a refletir!

    estou muito feliz com o que li e de quem partiu.

    Parabéns, não conhecia este seu lado.

    Grande beijo,

  1. VANI XAVIER
    13/06/2010

    DANIEL……PARABENS QUE TENHAS MUITO SUCESSO…..

  1. Naef
    10/07/2010

    Querido Daniel. Lí e relí esta viagem, com vagar, saboreando palavras, e fiquei feliz e emocionado pelo sentido humanista que deste a viagem de flannery. É sabido que nós outros precisamos mais sentir que investigar. Foi o que sentí nesta tua reflexão. A quem pertence o direito de avaliar a perfeição que às vezes buscamos, senão ao resto do mundo (Ponto de interrogação). Grande abraço meu e da titia Cleni.

  1. veterinary medicine
    20/12/2010

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  1. Carlota Appleton
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  1. Gravatar

    Nome 07/02/2012

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