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Por Daniel - 02 de junho de 2010.
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Os rostos marcados por expressões ressentidas eram uma característica de todos naquela organização total. Porém havia nuances muito particulares neste orfanato. Primeiro, ele não possuía quartos, tampouco corredores longos e sombrios, não era cercado por muros, muito menos havia freiras a zelar pelas rotinas, aliás, nele, freiras eram indesejadas. A disposição de espaço e tempo no orfanato era muito específica: os órfãos ficavam espalhados mundo afora, presos em suas caselas nas quais se sentiam livres, mas se comunicavam uns com os outros com muita freqüência, das mais diversas formas possíveis, para conspirar sobre seus planos de fuga, datados desde 1917. Aliás, alguns membros mais antigos, até recentemente, ainda viviam em 1917. O principal divertimento, ao contrário dos tantos orfanatos conhecidos, não era a televisão. O grupo preferia reuniões, pois nelas afloravam idéias que, mais cedo ou mais tarde, se transformavam em livros. A televisão fora totalmente banida desde a queda do muro de Berlim, evento cuja veracidade era apenas menos questionada que a conquista da lua. Contudo, nada era mais desejado que os passeios, mais ou menos freqüentes ao éden, refúgio perfeito onde aqueles órfãos, finalmente, sentiam-se em casa, o destino: Cuba. Muito mais que um orfanato, viviam todos em um mundo paralelo. Uma realidade própria que espelhava, verdadeiramente, aquilo que estava além das paredes inexistentes que os oprimiam. Do lado de fora, pessoas tratadas como gado, trancafiadas em indústrias e escritórios, e alimentadas com o vil metal, e nada possuíam, pois tudo lhes era oferecido em troca de submissão. Do lado de dentro, a vaidade fora suprimida, apesar de muitos questionarem se ela realmente não estava mais presente: o desejo de contrapor a estética, as longas barbas, as mulheres masculinizadas, e tanto outros estereótipos, tinham por objetivo exaltar o intelecto, mantendo-o acima da futilidade do capital. A vaidade era então transferida do corpo para o cérebro, e o conhecimento a moeda válida para as negociações não raramente árduas. Um órfão de Marx que honrasse sua pátria, apesar de não concordarem com a expressão por acreditar que Marx não poderia morrer, e também por acreditar que não havia pátria mãe, e sim um mundo sem fronteiras, propriedade da classe proletária, deveria fazer parte da resistência. Mais que fazer parte, deveria resistir bravamente pela causa da liberdade, a exemplo das muitas vitórias ocorridas ao longo da história, que garantiram a liberdade das pessoas – com o perdão da ironia. Cada um em sua área, os órfãos se distribuíram para corromper o sistema, para apresentar ao “rebanho povo” a ilusão coletiva a que eram submetidos. Com tristeza, os mais antigos assistiram a derrocada do orfanato, do qual ainda restam alguns beliches ocupados por gentes de cabelo estranho, mas que se confundem quando recebem poder. A classe “operária” ainda guarda a ingenuidade, por isso não se impõe, por isso não destrói a estrutura. No final, alguns foram aglutinados, outros corrompidos, muitos não se vergaram e padeceram na mão de freiras em hospitais, parte deles se imortalizou em escritos clássicos que ecoam até hoje. Nota ao leitor: Texto com inspiração livre na obra de Maurício Tragtenberg. | |


























