Choque de realidade

Regularmente, o Núcleo de Tendências e Pesquisa da Faculdade de Comunicação (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) realiza pesquisas que alimentam o Projeto 18/34, com o objetivo de identificar e descrever comportamentos e expectativas do jovem brasileiro da geração Y em relação ao seu futuro e ao país que deseja construir. 

A política é um dos assuntos mais discutidos por Júlia Fay, 20 anos, na roda de amigos, em casa e nas redes sociais. Tem a influência do pai, que é vinculado ao Sindicato dos Bancários, se identifica com posições ideológicas de esquerda e já participou de manifestações de rua. Cursa o segundo semestre de Publicidade e Propaganda depois de dois anos na Fisioterapia. Pensava que na área da saúde poderia ganhar mais dinheiro, mas não estava se sentindo confortável com a escolha e resolveu mudar. Ao contrário, nota que os jovens estão buscando posições no mercado de trabalho e deixando um pouco de lado a felicidade na hora de decidir sua profissão. Júlia faz parte do Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência, vinculado à Escola de Comunicação, Artes e Design – Famecos, que realizou o Projeto 18/34: Modelo de País. Como uma pesquisa feita por universitários com o público de sua faixa etária, de 18 a 34 anos, ela não se surpreendeu com os resultados, que mostram os impactos da crise no comportamento. Por exemplo, um emprego com carteira assinada é a preferência de 72,7% para garantir seus direitos.

O sonho de viajar e conhecer o mundo ainda está em primeiro lugar na opinião de 53,1% dos entrevistados, mas trabalhar e ganhar bem é prioridade para 38,8%. Ser feliz no trabalho caiu para 29,3%, enquanto que em 2013 chegou a 47,9%. Ser capaz de ajudar os outros a mudar suas realidades de vida subiu de 30,6% para 35,9% nesses quatro anos. Esse item alcança o terceiro lugar em 2017, acima de se divertir e formar família.

“Os jovens se parecem mais com seus pais, mostrando que têm a cabeça no lugar. Estão saindo da ditadura do prazer. Ser feliz no trabalho, antes quase um dogma, fica em segundo plano, quando a meta passa a ser a busca por estabilidade”, interpreta o coordenador do Núcleo, professor Ilton Teitelbaum.

A busca por estabilidade em termos profissionais pode ser consequência do desemprego (desde a pesquisa de 2013, o índice de entrevistados que viveu essa situação subiu seis pontos percentuais) e da necessidade de trabalhar e estudar – o que aumentou 5,7 pontos percentuais.

Com a mudança do cenário, a política assume grande interesse. Perde só para cultura/entretenimento e tecnologia/inovação. Um alto número (70%) procura se inteirar sobre política, economia e causas sociais. Quanto ao comportamento, 67,8% deles evitam praticar corrupções do dia a dia e 62,5% buscam votar conscientemente.

CAMINHOS PARA O BRASIL

Os jovens entrevistados defendem que o Brasil deve aproveitar sua diversidade cultural e o modo de ser das pessoas, fazer uma reforma política e investir em educação. Grande parte (80%) se preocupa com o futuro do País e quer uma democracia mais representativa, honestidade e transparência, com menos desigualdade social, mais segurança e estabilidade econômica, sem esquecer de pedir menos preconceito. Pensam que o futuro do País depende de um presidencialismo dotado de mais representatividade e democracia, o que correspondeu a 59,8%. Apenas 5,9% são a favor da volta da ditadura.

Os itens menos citados como positivos no Brasil foram segurança, sistema político e sistema de educação. Para 40%, os grandes vilões são os políticos, com destaque para o Norte, Nordeste e Sul, enquanto que 30% consideram a população, principalmente do Centro-Oeste e Sudeste.

Teitelbaum analisa que há uma crise de confiança enorme. “O futuro depende um pacto  político e de novos líderes. É preciso refundar o Brasil. Partir para uma construção mais coletiva, com modelos e metas.”

SUSTENTABILIDADE

O projeto 18/34 é conduzido desde 2012 pela Famecos. Em 2018, o tema será sustentabilidade, tendo como base os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, elaborados pela ONU. O grupo tentará patrocínio para essa edição. Já conta com bolsas de iniciação científica, como a BPA/PUCRS.

 

Quem são

74,6% dos respondentes estão estudando: 37,5% apenas estudam, 24,5% estudam e trabalham. A maior parte da amostra é representada por jovens com renda familiar de R$ 1 mil a R$ 5 mil.

 

Como se comportam no meio on-line?

Comparação com pesquisas anteriores

Em geral, os jovens passam até 8 horas on-line.
Em 2013, o item mais comprado pela internet eram livros.
Desde 2013, as compras on-line continuam em crescimento.
Em 2017, passaram a ser serviços de streaming.

 

Como ganham
seu dinheiro

Em relação ao dinheiro, 65% se dizem moderados, equilibrando ganhos e gastos. Economizam para ter uma reserva no futuro (50%), guardar visando a emergências (43,7%) e pagar contas (32%). Carro vem deixando de ser prioridade, ficando em 8º lugar, atrás de internet/wi-fi/dados móveis, computador/notebook, geladeira/freezer, lava-roupa, celular/smartphone, casa própria e micro-ondas.

 

Como se informam

Os jovens buscam se informar principalmente sobre política, economia, leituras para Faculdade, esportes, entretenimento e cinema.

Sites de notícias, Twitter e Facebook são as fontes de informação. Raramente os entrevistados leem jornal ou assistem à televisão.

 

Metas profissionais

Entre os objetivos profissionais, se destacam busca por reconhecimento, espaço para desenvolvimento, desafios em primeiro plano, flexibilidade como estilo de vida, um bom ambiente e foco em comunhão de propósitos.

75% desejam trabalhar com o que gostam e alcançar estabilidade financeira.

30% cogitam ter o próprio negócio.

 

Posicionamento político

A maior parte dos jovens busca combinar as qualidades da direita e da esquerda em seu posicionamento político. A região Sul tende mais à esquerda (com 34,9% dos respondentes), enquanto o Centro-Oeste, à direita (40,7%). O Sudeste é uma região mais dividida em seu posicionamento político, ainda que prefira a direita (30,6%).

Quase metade acredita que a terceirização deve ser permitida só em atividades secundárias.

Com um senso de coletividade, acima de 50%concordam em se aposentar mais tarde pelo bem do sistema previdenciário

 

Saúde mental

36% já fizeram acompanhamento psicológico. A região Sul lidera, com 19%. Na mostra geral, 17% tomam ou tomaram antidepressivos, ansiolíticos ou afins. 35% dos jovens não fazem acompanhamento psicológico, mas gostariam.

 

Sobrecarga

75% dos jovens se sentem de algum modo sobrecarregados com suas responsabilidades. Na faixa etária de 18 a 24 anos, o estudo é o motivo. O trabalho pressiona os demais, dos 25 aos 34.

 

Como foi feita a pesquisa

A pesquisa Modelo de País teve início com a busca de dados disponíveis e a etapa qualitativa. Após a coleta de dados secundários, foram realizadas cinco entrevistas com especialistas, sendo eles das áreas de administração, comunicação e psicologia. Em uma segunda etapa, dois jovens de 18 a 24 anos e quatro jovens de 25 a 34 anos participaram de entrevistas de profundidade. A etapa final e quantitativa contou com a participação de 1.620 respondentes de 18 a 34 anos, separados proporcionalmente pelas regiões brasileiras, de acordo com as estatísticas do IBGE.

 

Fonte: Revista PUCRS     http://www.pucrs.br/revista/choque-de-realidade/

 

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