O jazz, as interfaces e a criação colaborativa

Sessões de improvisos são exemplos perfeitos de experiências de fluxo, um estado de concentração total, que nos coloca em total absorção em uma atividade

Vamos começar com a trilha sonora: pegue um clássico de Charles Mingus, um que comece misterioso e cresça num pico de energia, talvez Haitian Fight Song ou Phitecantropus Erectus. Melhor se você tocar em um sistema em que os baixos sejam sentidos com impacto. Mingus não é um músico qualquer. Diferentemente da maioria de seus pares na mitologia do jazz, ele não dirigia sua banda do ponto de vista do solista, mas fazia sua mágica direto na cozinha, num baixo acústico.

Ouça como a energia parece vir do chão, se espalha no ambiente por meio de suas notas de base e é sentida direto no peito. Sinta como o tema cresce e se transforma com a entrada dos músicos até que os solos se iniciem e abram caminho para um diálogo intenso. Perceba como o grupo parece adivinhar a viagem de cada um, criando novas convergências a partir das variantes inesperadas abertas por seus colegas. Note como eles caminham juntos, como respiram juntos.

Sessões de improvisos são exemplos perfeitos de experiências de fluxo. Um estado de concentração total, que nos coloca em total absorção em uma atividade. Também um estado de satisfação e plena realização, geralmente associados a desempenhos excepcionais. Curiosamente, também associados a estados de plena felicidade.

Preste atenção no aparelho que você está usando nesta experiência. Se for um produto digital, você quase que certamente está experimentando outra dimensão deste pensamento. Desde sua popularização nos anos 1990, a psicologia do fluxo foi completamente absorvida pelo design de experiência nos computadores, nos celulares e seus aplicativos, e também na realidade aumentada e na internet das coisas. Camada por camada, a humanização das interfaces seguida da conexão direta de pessoa para pessoa, pediram a criação de correntes de informação sem barreiras.

O proponente da psicologia do Flow, Mihaly Csikszentmihalyi, fez a comparação com o jazz numa entrevista para a Wired em 1996, para descrever o estado de fluxo no contexto do design de experiências digitais (naquele momento, websites): “ficar completamente envolvido numa atividade só pela  experiência. O ego cai de lado. O tempo voa. Toda ação, movimento e pensamento surgem inevitavelmente a partir do anterior, como tocar jazz. Todo o seu ser está completamente envolvido, e você está usando suas habilidades no máximo”.

Essa é uma poderosa via de mão dupla. No mesmo caminho em que nossas ferramentas e ambientes, só pela razão de sua existência, se organizaram para acomodar os mais fluidos pensamentos e emoções humanas, eles nos empurraram para a invenção de formas mais fluentes de expressão criativa. É como um jogo de pega-pega, como numa sessão de jazz.

Agora tome um pouco de distância e olhe para como alimentamos estas máquinas com nossa própria criatividade. Os princípios de suspensão de julgamento externo, de concentração plena e máxima performance criativa vem sendo aplicados em processos estruturados para a criação colaborativa. Esses momentos de fluxo criativo são especialmente significativos para a descoberta de oportunidades inesperadas, já que alinham pontos de vistas diferentes em dinâmicas de investigação e modelagem rápida de ideias, onde cada um constrói no pensamento do outro até que a mágica aconteça.

As experiências vão da criação de conceitos estratégicos, como fazem no genial Mesa e Cadeira, à criação de produtos inovadores ou mesmo empresas inteiras como na GV (ex-Google Ventures), braço de venture capital da Alphabet. O mais interessante é que são processos muito divertidos e envolventes, mesmo quando trabalham em contextos muito complexos. Qualquer semelhança com uma jam session é provavelmente mais que uma coincidência.

Fonte: Mauro Cavalletti, Head of creative shop do Facebook, para LinkedIn

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